Where is My Mind?

Where is My Mind?

abril 6th, 2011

 Invictus


Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso,
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por minha alma insubjugável agradeço.


Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.


Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.


Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma


William E. Henley

outubro 8th, 2010

Bebido o Luar


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.


Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.


Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


Sophia de Mello Breyner Andresen

outubro 8th, 2010

outubro 8th, 2010

Ao Rosto Vulgar dos Dias


Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.
Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.


Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.


Alexandre O´Neill

setembro 27th, 2010

Anelo


Só aos sábios o reveles
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo


Na noite – em que te geraram,
Em que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.


Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.


Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! E nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voa para a luz em que ardes.


“Morre e transmuta-te”: enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.


Como vem da cana o sumo
Que os paladares adoça,
Flua assim da minha pena,
Flua o amor o quanto possa.


Goethe

setembro 27th, 2010

setembro 27th, 2010

Cartas De Um Vidente


Oh estações, oh castelos,
Que alma é sem defeito?


Oh estações, oh castelos,


Eu fiz o mágico estudo
Da felicidade, que ninguém evita.


Ora viva ele, toda vez
Que canta o galo gaulês.


Mas não desejarei mais nada,
Ele tomou conta de minha vida.


Esse encanto! Fez-se de carne e osso,


E dispersou todos os esforços.


Como compreender minha palavra?
É preciso que ela fuja e voe!


Oh estações, oh castelos!


Arthur Rimbaud

Dead Like Me

setembro 27th, 2010

Wucan – Black Mountain

setembro 19th, 2010

setembro 19th, 2010

Meu anjo


Meu anjo tem o encanto, a maravilha,
Da espontânea canção dos passarinhos…
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.
 
Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto.,,
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.
 
Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo…
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.
 
Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso…
Dá morte num desdém, num beijo vida
E celestes desmaios num sorriso!
 
Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,…
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!


Álvares de Azevedo

setembro 19th, 2010

setembro 19th, 2010

Sabedoria


Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança…
E venha a morte quando
Deus quiser.


Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.


Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.


Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.


José Régio

setembro 19th, 2010

setembro 19th, 2010

Beatitude


Corta-me o espírito de chagas!
Põe-me aflições em toda a vida:
Não me ouvirás queixas nem pragas …


Eu já nasci desiludida,
De alma votada ao sofrimento
E com renúncias de suicida …


Sobre o meu grande desalento,
Tudo, mas tudo, passa breve,
Breve, alto e longe como o vento …


Tudo, mas tudo, passa leve,
Numa sombra muito fugace,
- Sombra de neve sobre neve … –


Não deixando na minha face
Nem mais surpresas nem mais sustos:
- É como, até, se não passasse …


Todos os fins são bons e justos …
Alma desfeita, corpo exausto,
Olho as coisas de olhos augustos …


Dou-lhes nimbos irreais de fausto,
Numa grande benevolência
De quem nascei u para o holocausto!


Empresto ao mundo outra aparência
E às palavras outra pronúncia,
Na suprema benevolência


De quem nasceu para a Renúncia! …


Cecília Meireles

setembro 15th, 2010

De Alma Em Alma


Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário,
As almas, em silêncio, contemplando.



Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.



Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.



Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!


Cruz e Sousa

setembro 15th, 2010

Sons of Anarchy

setembro 9th, 2010

setembro 9th, 2010

Soneto LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.

William Shakespeare

Illusions – Cypress Hill

setembro 7th, 2010

setembro 7th, 2010

Meu Sonho

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?.
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? – que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!.

Álvares de Azevedo

setembro 7th, 2010

setembro 7th, 2010

Com Este Mal-Estar A Fazer-Me Pregas Na Alma


“Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar-entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim…
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!”


Álvaro de Campos

Guernica – Picasso

setembro 7th, 2010